Cronologia das Secas: Seca - 1932

Seca - 1932

Vítimas da seca - Crianças e adultos ao lado da linha férrea que levava para o Campo de concentração de Senador Pompeu. De forma assustadoramente parecida, as cenas brasileiras dos currais humanos lembravam bastante os campos de concentração nazistas.

Foto da construção do açude Itans em Caicó / RN. Os primeiros estudos para a construção do açude datam de 1907, A obra foi concluída no final de 1935.

Na seca de 1932 o nordeste brasileiro sofria com as conseqüências da estiagem, mas também vivia um momento histórico próprio dentro da era de Getúlio Vargas; Lampião e seu bando centralizavam as atenções dos políticos; as oligarquias políticas do Nordeste mudavam de nomes; Padre Cícero ainda tinha influência política e milagrosa para os sertanejos e a irmandade do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto atraia centenas de flagelados para os arredores de Crato, no Ceará.

Com o temor da intensa invasão de flagelados para Fortaleza — e para outras grandes cidades do Ceará — a estratégia dos Currais do Governo (campos de concentração) mais uma vez foi implantada, só que desta vez não somente em Fortaleza, mas também em cidades com alguma estrutura básica e com estações de trens. Além dos campos de concentração na capital da Terra da Luz, um no já conhecido Alagadiço e um outro no noroeste da capital, no Pirambu (ou Campo do Urubu como ficou conhecido), foram instalados outros em Crato, em Cariús, Ipu, Quixadá, Quixeramobim e Senador Pompeu.

Os sertanejos ali alojados recebiam algum cuidado e comida, e podiam trabalhar nas frentes de obras, sempre sob a vigilância de soldados.

Flagelados foram confinados nesses campos onde as condições eram desumanas, o que resultou em inúmeras mortes. Ainda durante essa seca, flagelados cearenses foram enviados para o combate nas trincheiras da Revolução de 1932 em São Paulo.

Os campos de concentração não apresentaram resultados satisfatórios, estava claro que o método havia falhado, porém, 17 anos depois da tragédia do 15, novamente o Governo do Estado se utiliza dos "currais" campos de concentração da seca de 1932, para conter as populações de flagelados que invadiam as cidades.

Na avaliação do Presidente de Estado na época, o engenheiro e militar Benjamim Liberato Barroso: "Ainda parece ouvirmos em tumulto queixume de um povo bom a debater-se de agonia de misérias que não vão bem longe. Sofreu com coragem inimitável os horrores da seca sem cometer desatinos; morreu de fome sem roubar nem saquear".

(trecho) Poema “Campos de Concentração no Ceará”, por Henrique César Pinheiro.

No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão.

Na seca de trinta e dois
Criamos uns sete currais
Para evitar que famintos
Criassem problemas sociais
E pudessem invadir
Na capital seus mananciais.

Pessoas foram confinadas
Como bando de animais.
Tinha a cabeça raspada
Sacos de açúcar, jornais
Era o que lhes serviam
Como vestes mais usuais

Sem nome, ou identidade,
Chamados por numerais.
Desta maneira estavam
Registrados nos anais.
Só se comia farinha,
Rapadura nos currais.

Toda essa gente foi presa
Sem ter crime praticado
E para isto bastava
Somente estar esfomeado.
Pedir prato de comido
Que seria logo enjaulado.

E controlados por senhas,
Pelas forças policiais.
Quem entrava não saía,
Senão pros seus funerais.

Para aqueles locais, todas
Pessoas foram atraídas.
Com promessas que seriam
por médicos assistidas,
Que teriam segurança
E fartura de comidas

Experiência que houve
Somente aqui no Ceará.
Que se iniciou em quinze
Naquela seca de torrar
Depois disso os alemães
Trataram de aperfeiçoar.

Alguns campos projetados
Para abrigar duas mil pessoas
Dezoito mil chegou alojar.
Presos por vilões e viloas,
Felizes os governantes
Ainda cantavam suas loas.

Em Ipu todos os dias
Morriam de sete a oito.
A maioria era de fome
E até por ser afoito,
Nas tentativas de fugas,
Pro que não havia acoito.

Mas a geração atual
Tem que redimir o erro
De governantes passados.

Holocausto da Seca - A história que o Brasil esqueceu.


Existem fragmentos da história brasileira negligenciados pelos livros. Muitos sabem da ira alimentada por Adolfo Hitler contra os judeus numa paranoica tentativa de “limpar” a Alemanha das impurezas daquele povo.

Poucos momentos da História são tão enraizados na memória da humanidade quanto à construção dos campos de concentração nazistas durante a segunda Guerra Mundial (1939-1945). Um cenário de terror no qual milhões de judeus perderam a vida com requintes de crueldade, flagelo e exposição às mais extremas formas de humilhação.

O que não está dito nos livros, porém, é que um pedaço do Brasil tem muito em comum com a Alemanha de Hitler, embora que em menor proporção. Vinte quatro (24) anos antes de explodir no mundo a segunda guerra mundial, aqui, abaixo da linha do Equador, os aglomerados de miseráveis e a epidemia de cólera que convergiam milhares de humanos a espaços demarcados por cerca de arame já era um passado infernal na história do sertão cearense.

Se na Europa de Hitler o objetivo era desafiar a ciência na tentativa de provar a existência de uma raça pura, para o Governo cearense a batalha era evitar que as vítimas da seca manchassem a imagem da capital, Fortaleza.

Na seca QUINZE (1915), para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense resolveu se precaver de uma maneira desumana. O governo criou os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca. Novamente na seca de 1932, de forma ampliada, o ser humano mostra sua face mais cruel, espalhando campos de concentração pelo estado do Ceará. Milhares perderam suas vidas, a falta de condições sanitárias e de comida completou o trágico quadro.

Segregar os retirantes das populações urbanas foi a solução encontrada pelo governo e elites para que o citadinos não tivessem que conviver com as pessoas de "fisionomia marcada pelo rito da miséria".
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HOLOCAUSTO DA SECA

Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org
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